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PAPO DE ESPECIALISTA

Envelhecimento bucal: Desafios e cuidados na terceira idade

Mudanças bucais e desafios no envelhecimento são discutidos pelo Dr. Hugo Nary, especialista em Traumatologia Bucomaxilofacial e Cirurgia Ortognática.

Publicado em 04/05/2026 às 14:50
Atualizado em

Dr. Hugo Nary (Foto: Acervo pessoal)

O aumento da expectativa de vida da população vem demandando atenção especial a condições físicas e psicológicas relacionadas ao envelhecimento. Não somente os cabelos ficam brancos, rarefazem, a pele se torna mais flácida, a musculatura mais fraca, a audição e visão se comprometem, restrições de mobilidade e manifestação de patologias passam a fazer parte de nossas preocupações diárias. O meio bucal também sofre com este processo de envelhecimento. Como cirurgião-dentista, que atua na área de reabilitação e cirurgia há mais de 30 anos, acompanho esta evolução nos pacientes e a mudança de cuidados e hábitos que devem ser desenvolvidos. Poderia listar várias alterações bucais características do envelhecimento e que não se restringem a perda de dentes, mas a toda uma mudança no ambiente da boca e face.

A primeira mudança seria relacionada a repercussões das alterações físicas comumente verificados no idoso, como por exemplo a perda de tônus muscular e alterações metabólicas diversas. Muitos pacientes perdem capacidade mastigatória, desenvolvem hábitos parafuncionais (ou seja, vícios de apertamento, bruxismo, tiques nervosos) disfunções de coordenação da deglutição, da fala e até da respiração. Podem até evoluir para quadros de apnéia (dificuldade de respiração noturna e perda de qualidade do sono). Estes pacientes poderiam e deveriam passar por terapia fonoaudiológica para adequar esta parte funcional e colaborar com melhoria de qualidade de vida, associando tratamentos odontológicos bem específicos. Da mesma forma que a musculação é muito importante nesta etapa da vida, o trabalho da musculatura facial auxilia na manutenção do equilíbrio funcional de respiração, fala e deglutição.

 Junto a este tópico, as diversas alterações metabólicas são marcantes e também se manifestam na boca. Diminuição de fluxo salivar (associado ou não a uso de alguns medicamentos) e doenças autoimunes predispõe o paciente a manifestação de cáries, doença periodontal, geram enorme desconforto para alimentação e podem estar associados a sensação de ardência e queimação. A mucosa (gengiva) tende a ficar mais fina, delicada e mais sensível a traumas e ocorrência de estomatites.

Outras alterações, mais específicas do metabolismo ósseo e uso de medicações para seu tratamento, como os bifosfonatos e drogas que bloqueiam atividade resorptiva do osso, podem predispor a ocorrência de sérios problemas como infecções e áreas de necrose, cujo tratamento é sempre difícil.

Os dentes, pelo próprio tempo de uso e, dependendo de hábitos que o paciente possui, podem evoluir com desgastes, trincas/fraturas, escurecimento, manchas e perdas de volume perto da gengiva (parecendo verdadeiras cáries), diminuição do espaço pulpar (com alteração de sensibilidade dos dentes e risco de necrose da polpa), além de movimentações, como inclinação para frente com abertura de espaço (diastemas) ou apinhamento (dentes encavalados). São alterações que podem demandar tratamento ou não, geralmente clínicos e de bom prognóstico.

A saúde do periodonto (osso e gengiva) também é afetada, tanto pelas alterações metabólicas mencionadas, diminuição da capacidade de defesa, maior fragilidade dos tecidos, quanto pela maior dificuldade motora para a realização de uma boa higiene oral. São comuns retrações gengivais, com exposição das raízes dos dentes, sensibilidade por conta disso, que também contribui com uma maior dificuldade de limpeza. Esta associação da maior propensão a acúmulo de alimento e placa entre os dentes, e menor capacidade motora, demanda um controle de higiene mais de perto por parte do dentista, com intervalos de tempo menores, tentando evitar mais perda óssea e manter a saúde da gengiva.

As perdas dentárias podem ser tratadas como em qualquer idade com implantes osseointegráveis; contudo, deve-se entender que isso demanda um procedimento cirúrgico onde pode haver alguma restrição física, local ou sistêmica, numa etapa da vida onde a cicatrização e reparo são mais comprometidos. Isso deve ser discutido com a equipe multidisciplinar que atende o paciente, médicos e dentistas, procurando avaliar riscos e benefícios destes procedimentos, estratégia, preparo com utilização/suspensão de alguma medicação.

Por outro lado, o uso de próteses que se apoiam em mucosa (na gengiva), levando em conta tudo o que foi comentado, pode se tornar mais difícil, mais desconfortável, com possibilidade de ocorrência de lesões hiperplásicas (aumento do volume da gengiva) e contaminação/infecção por fungos. Nem sempre as mesmas podem ser substituídas por implantes e por isso devem merecer uma atenção especial do dentista, com controles periódicos.

Também os quadros depressivos e uso de medicações neuro moduladoras, podem predispor as parafunções (como apertamento e bruxismo) e ocorrência de neuropatias. Seriam dores localizadas, persistentes, associadas a problemas de canal, cárie, extrações e problemas periodontais.

As degenerações articulares, que se manifestam no corpo todo, também podem ocorrer de forma isolada ou associada na ATM (articulação entre a mandíbula e o crânio). Geralmente estão associadas às disfunções musculares que podem induzir uma dor crônica que envolve a região da boca, face e pescoço, limitação de movimento da mandíbula, dificuldade de abertura bucal, sons de estalido e crepitação próximo ao ouvido, perda de força de mastigação e até zumbidos. Estes quadros chamados de DTM (disfunção têmporo-mandibular) são crônicos, que podem se iniciar em qualquer idade e tendem piorar com o envelhecimento. A DTM merece abordagem multidisciplinar, com terapia muscular, medicação, aparelhos odontológicos como placas e até procedimentos mais invasivos como infiltrações e cirurgias.

Enfim, estas mudanças nas condições de boca não devem ser vistas como incapacitantes ou mesmo obstáculos intransponíveis para qualidade de vida; mas como alterações que nosso corpo vai experimentando com a possibilidade de se viver mais. Muitas podem ser tratadas, controladas, mitigadas para que o envelhecimento possa vir acompanhado de qualidade de vida. Todos temos que entender que as restrições no decorrer da vida são normais, vamos perdendo mobilidade, visão, audição, força e até o raciocínio. Nosso desafio é manter equilíbrio, controlar estas alterações de forma a manter nosso conforto, prazer em viver e a felicidade. A boca/face tem importante papel neste sentido, pois nos alimentamos, comunicamos, ouvimos e respiramos. O organismo é extremamente complexo e todas as funções se relacionam. O desafio para a odontologia, assim como para medicina, fisioterapia, fonoaudiologia, é coordenar estas mudanças e manter a qualidade de vida possível para cada paciente. O Dentista deve aperfeiçoar-se para entender as manifestações bucais do envelhecimento, deve interagir com outras áreas de saúde para implementar a terapia mais adequada ou possível. E sempre lembrar que o envelhecimento nem sempre vem acompanhamento da idade, os relógios cronológico e biológico nem sempre andam juntos...


Dr. Hugo Nary – Doutor, Mestre e Especialista em Traumatologia Bucomaxilofacial, Cirurgia Ortognática e Implantodontia.

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