Tem uma seção do jornal que quase nunca entra nas discussões sobre o futuro da mídia, mas continua sendo uma das mais acessadas: os obituários.
Pode parecer curioso, mas eles ainda ocupam um espaço importante, principalmente em jornais locais. E não só do ponto de vista emocional, mas também dentro da lógica de funcionamento desses veículos.
Um estudo da University of Missouri, que ouviu 135 líderes de jornais semanais nos Estados Unidos, analisou como essas publicações lidam com os obituários. A maioria cobra para publicar esse tipo de conteúdo, e muitos justificam a prática como uma forma de gerar receita para o jornal. Ainda assim, na prática, esse dinheiro representa pouco.
Em cerca de 80% dos casos analisados, os obituários não chegam a 5% da receita total. Ou seja, estão longe de ser um pilar econômico. Mesmo assim, continuam existindo e sendo tratados como parte importante da operação.
A grande maioria dos profissionais ouvidos no estudo afirma que os obituários têm um papel essencial na conexão com a comunidade. Eles funcionam como um registro público de pessoas e histórias locais, algo que historicamente sempre fez parte dos jornais.
Ao mesmo tempo, existe um dilema. Mais da metade dos entrevistados reconhece que o custo pode ser uma barreira para famílias. Ainda assim, apenas uma parte menor defende que o serviço seja totalmente gratuito. Na prática, muitos jornais adotam um modelo intermediário, oferecendo notas básicas gratuitas, com informações essenciais, e cobrando por versões mais completas.
Outro dado interessante está no comportamento do público. Mesmo com redes sociais assumindo parte da função de informar sobre falecimentos, os obituários seguem entre os conteúdos mais acessados em muitos sites de jornais locais, segundo os próprios responsáveis pelas redações. Em alguns casos, são consistentemente um dos links mais clicados.
No fim das contas, isso mostra que nem tudo dentro de um jornal se explica só por receita ou audiência em escala. Alguns conteúdos continuam existindo porque cumprem um papel que vai além disso. E, no caso dos obituários, esse papel está diretamente ligado à forma como uma comunidade registra e acompanha a própria história.